segunda-feira, 24 de junho de 2013

uma bela mentira

Se ele bem a conhecia, naquele instante, ela lhe ergueria um sorriso monumental. Como estudante de Arquitetura, ele deveria saber como apetecer-se dele. E sabia. Não era um total conceituado, mas ainda assim apreciava a boa arquitetura de Niemeyer. E dali do espelho, olhava-a, devorava aquele rosto que ia se fazendo aos poucos, tímido.
Não sentiu a inércia tomando conta de seu corpo. Nem quando se cortou ao deslizar a navalha do lado errado da barba. Por falta de uso daquele sorriso, ele se fazia eterno. E ele pedia, exaustivamente, para que o tempo parasse, engatinhasse, quando ela dava aquele tipo de sorriso.
Sentia os resquícios da sua pele despertando os poucos, enquanto ela desfazia os risos. A pele vagabunda, tatuada de lábios avulsos. O sorriso, aquele insubstituível, não florescia colorindo as tatuagens das outras. Não ficaria bem àquela mulher colorir as próprias traições. Não se sentia bem sorrindo o dia do teu homem. 
Olhou nos olhos dele depois de pintar o seu dia. Pensou se o prazer que ele sentia com as outras era puro deslumbramento ou se era de todo uma arte. E se confundiu, pois não saberia dizer se, na verdade, era ela: a outra.
Tinha medo de sê-la, porque gostava de estar com ele. Gostava de secar os teus cabelos com a toalha e tatear os óculos sempre perdidos entre as almofadas do sofá. Gostava de mimá-lo com rimas nos sacos de pão e solfejar a sua canção preferida na hora de dormir. E esses instintos maternos a faziam sentir-se nada como a outra, mas sim como uma legítima mulher que cuida do seu homem. 
Ele pouco a mimava e gostava mais de observá-la através do reflexo do espelho do que olhos nos olhos. Ele a admirava demais, mas longe! A verdade é que tinha medo de tocá-la, sentia-se impotente, exposto demais àqueles olhos, àquele corpo miúdo. E se perguntava como algo tão pequeno poderia exercer tanta influência nele.
Os dois esperavam o tempo passar naquele espaço minúsculo. Se olhando através do espelho. Se comunicando através do silêncio. Através das arquiteturas erguidas nos lábios. Através da ardilosa máquina da impessoalidade, da falta de intimidade. Sem vocação pra aceitar ser outra, sem vocação pra ser feliz, sem vocação pra dançar.

Sem vocação pra amar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário