terça-feira, 2 de julho de 2013

a apaixonante leveza do ser

Tive um sonho esses dias e percebi que o meu maior medo sempre foi o próprio medo. Não que eu seja uma corajosa indômita que vem se espantando por ser pega à inconsciência do sonho. Mas, veladamente, o meu medo sempre foi ter medo, embora não um medo qualquer, como poderias imaginar, já que se chego a revelá-lo não há de ser por pouco. Pouco sempre me pareceu tanto, então... Os meus dramáticos desejos, embora grandiosos e até bonitos, cheios de poesia e coragem, eram poucos a comparar a paixão que eu usava naquilo que nunca tinha sido o que eu queria de fato.

Peguei-me a rever os meus próprios atos, minhas próprias paixões que nunca foram paixões de fato, a quando derramar-me de amor, derretida que nem manteiga deambulando na boca após abocanhar um pão pela manhã. Eu alimentava e era alimentada por coisas tão poucas, por migalhas embebidas no sal como se aquilo me consumisse, embora eu sempre consumisse mais do que a quem ou ao que devorava. E não me importava acharem que era a dominada, quando meu papel secreto era o papel de enlouquecê-los, pouco a pouco, sob o meu domínio, porque fora dele eu já não os queria mais... Eu já não os queria mais.

E o medo, sob meu domínio, já não era mais querido. Porém, o medo é uma besta feroz e infiel. E o meu medo, por medo, me fazia ser apenas mais uma besta feroz e infiel à si mesma. Às vezes, durante algum tempo, esquecia dessa minha covardia pelo medo (que esquecer da minha covardia sempre fora o meu ato mais covarde). E não via mais motivo pra ter tanto medo... até que ele me tomava e me obrigava a senti-lo. Tudo isso se desenrola na vida, nos meus passos, nesses que sempre tropeçam na rua e me fazem distraidamente alegre e cambaleante. Não me importo disso, nem me importo de não ter crescido o suficiente, nem de não ser elegante, não me importa ter amado de verdade e depois já não amar mais, não me importa mentir e manipular, não importo-me mais se nem a quem me conhece não há nada a conhecer, não me importa o que eu amo, não importa o que eu penso e já não importam minhas qualidades se ao mundo escolherem os meus defeitos. Os meus medos, minhas covardias, meus declínios, quedas e falhas. Portanto, declaro-me culpada de todos os meus pecados, pois sim: eu menti, eu trai, eu falsifiquei, eu contei o que não devia, eu olhei dentro dos olhos deles, eu olhei dentro dos meus olhos, eu pensei! Por deus, eu pensei! E que pecado é maior do que o pecado de pensar?

Ah...
O amor, meus queridos, é bem pior. Ele remete ao pecado do sexo. E como engolir os prazeres que o amor proporciona dentro de si? Como não se perder entre os suores envaidecidos da falta de fôlego, como ignorar as sensações das coxas mornas repousando sobre as coxas quentes e não perder-se entre os prazeres de um beijo com gosto de perigo, com gosto de gosto de gente. Como ignorar o que as entranhas sentem com um doce adeus e um amargo começo? Ou estaria eu, mais uma vez, tão confusa quanto à óbvia utopia dos pessimistas? Dos existencialistas? Eu deveria me calar ou deveria gritar, para que ninguém ouça, para que me silencie outrem, a quem é encarregada a função de calar-me com suas borrachas de ideologias?

E como se eu me olhasse no espelho, após o sonho, e não me visse mais. Fichada na minha própria liberdade que só por chamar-se assim já se perdeu dentre os pedaços de pão. Mas como? Se a liberdade, Sancho, não é um pedaço de pão. Eu jurava que era. E juro até hoje, creio. Mas as minhas crenças já se revertam em quase nada. Sendo "o nada" uma crença vazia. E se pudesse libertar a algo ou a alguém seria a mim, mas se já não apareço no espelho, como poderia libertar algo que não reflete, que não existe, que não produz efeito algum, que não tem cor, nem gosto, nem cheiro, nem forma, nem sombra... Ah, seria amar a deus um conceito ruim? Não, acho que o que chamam de deus tem algo a ver com energia ou sei lá. Seria uma espécie de liberdade à crença dos outros? Libertar deuses das suas inexistências míticas? Ou das suas próprias existências articuladas e poderosas? Dar a um ser sem forma um poder é ser poderoso. E se já não tenho deus e nem uma crença, portanto, já não tenho poder algum, nem o da fé. Ou da esperança.

E volto a lembrar-me do meu sonho medroso, que começou a toda essa melodia triste que não poderia ser de Chopin, o que até me entristece. É que eu temia ao que eu não era, também. Eu temia a essa força inexistente, pois eu não a via, mas nela eu cria com toda a força do medo. E é isso que move as pessoas a buscarem seus deuses... O medo, a incerteza, a imperfeição dos próprios reflexos. E embora elas busquem deuses para buscarem a compreensão, são incompreensíveis por si só... Pois de nada esse paradoxo pode ser chamado a superficial, mesmo que não tenha nada de complexo. 

Tive um sonho esses dias e percebi que o meu maior medo sempre foi o próprio medo. Não que eu seja uma corajosa indômita que vem se espantando por ser pega à inconsciência do sonho. Mas, veladamente, o meu medo sempre foi ter medo de mim mesma.

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