quarta-feira, 17 de julho de 2013

o bêbado e as equilibristas

Seu nome não era Carlitos e não nos interessava seu nome, tampouco olhar aqueles olhos cansados e devoradores de virgens. E o timbre de sua voz, repugnante, impondo sua presença asquerosa dentro de nós para que ecoasse suas palavras maliciosas e ecoavam, dentro do esôfago, por todo o café, dentro de todas as pinturas penduradas de Van Gogh que pareciam estremecer e regurgitar pensando nas intenções daquele que não lembrava-nos Carlitos.

Ofereceu-nos propina, dinheiro, coçou o saco como se possuísse um membro rígido dentro das calças, como se o incomodasse alguma ereção que provocávamos sem intenção alguma. E sem intenção fazia-se crime, cumpríamos pena, reduzida, mas ainda assim cumpríamos.

E a comida, o café, os queijos que tínhamos imaginado macios, que derretessem em nossa boca com um delicioso gosto de conforto e sem nata alguma, mas é isso que sentíamos: queijo com gosto de nata, com gosto de gozo masculino e a fétida impressão do estupro.

Só viemos a respondê-lo quando já não podíamos mais ignorá-lo; não podíamos mais evitar querer gritar também com ele, vociferar para ele agressões como se fossemos todos os animais e vivêssemos presentes nessa morte constante pra alimentar os ricos e servir aos cães e porcos.

As equilibristas a brigar com o bêbado, jogando saliva ao vento, deixando que os lábios encontrassem algum jeito de evitar contato, quando ele impunha a nós não só os lábios, mas a sua nebulosidade, suas palavras e gestos que eram características de um infeliz traído que tinha o pau mole e dizia o contrário.

Era rico, dizia, mas se parecia com a menos rica das pessoas daquele lugar, daquele subúrbio e daquele sorriso pérfido que mal durava nos lábios por cambalear entre os cantos da boca e dos olhos que não sei de que cor era e nem poderia saber.

Sabíamos o que não dizer e contávamos que poderíamos ser feliz, pois eu amava um cara que não vinha nunca, mas me desejava com certo amor e eu o amava e dizia e falava e contava que amava para apenas um  único amor conseguir amar. Ela amava e era amada, da maneira doce que falava e olhava e era insegura, mas era mulher, coisa melhor do que eu ou talvez pior e eu não soubesse notar. Mas a gente tentava se notar no meio daquele impropério, como todas as dificuldades de duas equilibristas.

Segurávamos a mão uma da outra, que bom que você não riu de mim enquanto eu nos defendia porque sabe ele era um idiota de pau pequeno. Eu pensei em rir mas vi que era uma coisa séria então fiquei quieta era problema de corno você não viu? Desculpe meu caro mas só falo com caras de pau grande. Cala a boca porque a única coisa que você vai comer hoje é esse sanduiche. 

E ríamos. O caminho inteiro ou foi assim que me pareceu. E quando pegávamos ônibus e contávamos com a ausência daqueles oportunistas para não contarmos amor e paixão à ninguém, pois pertencia à nós os olhos daqueles que não diziam, mas amávamos. Ou eu amava, por não saber apenas desejar. Você desejava, por não saber amar. E assim, bebíamos, cantávamos, dormíamos e amávamos para não ter que enfrentar a corda bamba da realidade. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário