segunda-feira, 29 de julho de 2013

pinte o céu na minha varanda

Essa noite sonhei como se sonhasse um filme de realismo fantástico. "A Espuma dos Dias" de Boris Vian que não conseguirei ler por falta de grana. Eis que o cenário desdobrava-se assim, com relatos irei a medida que lembrar deles, portanto, talvez essa descrição saia tão incoerente e irreal quanto o sonho. Tentarei deixá-lo palpável e distante, a meu próprio gosto, pois fodam-se os inebriados a quem interessados lerem. Também ao fato de que, literalmente, saltei do sonho para vir contá-lo como a tola contadora de histórias que sou. 

Estava calor, era o Rio de Janeiro, porém, longe de qualquer lugar onde já estive por lá. Festa de família, todos eles. Lugar aberto, como uma casa velha de madeira encanecida de piso frouxo e nada confiável. A mais parecia um bar rústico e na minha memória agora, não no sonho exatamente, acrescentaria umas luzes de Natal sobre a televisão e o aparelho de som em cima do balcão. Havia calabresa frita para comermos e a medida do sonho, não conseguia de jeito algum comê-la. Portanto, tirei da boca e comecei a parti-la em miúdos pedaços nostálgicos, como um passarinho solitário, e finalmente consegui comer o tal pedaço de comida. 

Chegaram alguns conhecidos da família. Dentre eles, uma criança que veio logo procurar por um afeto, um colo meu. Dei-lhe o tal colo, mas era um colo pesado, pois o peso da criança derrubou-me frágil no chão. Fui repreendida pelo colo, como se errado fosse dar-lhe carinho. Portanto, deixei-a sentada em meu colo. Mas a criança fugiu dele. 

Fui bebendo coragem o sonho inteiro para distanciar-me da família e sair daquele bar/casa. E em frente a este lugar havia uma grande igreja católica, da qual iria aventurar-me a tirar uma fotografia, mas me coube apenas olhá-la. Na rua, alguns fardados que aos poucos iam deformando-se, mas não de maneira grotesca ou repugnante, mas como formas bonitas que iam se transformando num quadro ao pôr-do-sol. Era pôr-do-sol, mas logo tornara-se noite. 

Com a noite tecida despontavam luas de todas as formas ao mesmo tempo, desenhadas num céu pintado. E uma enorme árvore crescia como se para ser fotografada junto às luas a quem eu dei minha total atenção artística. E dentre isso, era Natal e a decoração tomava a forma sangrenta. Talvez uma referência a um filme que assisti recentemente. Eu mesma, no sonho, vim a dizer que era a lua sangrenta.

Fui a praia. E encontrei, como uma gravação, um casal. Fui voyeur dos dois, tentando fotografá-los, mais do que filmá-los como uma lembrança que não é inerte, que se move. Queria-os imóveis, pegos num momento singular, sem que se perdessem entre as ondas do mar. E o homem, ajoelhado, beijava os joelhos daquela mulher que não tinha um rosto, mas eles se entrelaçaram e, de pronto, confundi-me naquela casal, naquela mulher sem nome. 

Eles se perderam nas ondas do mar, talvez junto ao sonho que foi terminando a medida que eu caminhava de volta pra casa, onde ninguém nem notara que eu havia desaparecido ou ao menos me tornado uma outra pessoa. Eu seria sempre aquela garota, daquele lugar. 

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