sábado, 12 de outubro de 2013

eu não me arrependo de Nebraska

Um gato miava. O apartamento em silêncio absoluto, um cigarro aceso. Um tipo de tempo e apenas os ruídos da televisão brilhando sob a profundidade tão superficial da morbidez. A hora marcada de rumores sorrateiramente ligeiros e aparentes, um minuto a cochichar com o próximo minuto. Por costume, ele recolheu-se para dentro de sua consciente melancolia de apartamento, uma amargura com ímpares dissabores. Fumou seu último cigarro do dia e embargou mais uma noite cansada.

Sua rotina quase que se repetia, espreguiçando-se ao atravessar das semanas. Quis contar ao próprio âmago um antigo segredo frígido. Quis abençoar-se com toda a culpa que a comiseração é capaz de amordaçar. Tinha comum à mordaça alguns conceitos sexualmente freudianos, esquecidos na orelha de algum livro ordinariamente chato ou num anônimo de citações próprias. Surpreendido pelas revelações de suas preferências emocionais, transferiu o lirismo a sexualidade. Comia todo mundo. Pedia certificado de propriedade efêmera e emitia aquele recibo gozado com os efeitos de uma fragilidade. 


Era sozinho. 
Por vezes, ele não se lembrava quem era, 
mas sabia exatamente de quem sentia a falta. 
Tinha plena consciência da ausência de si. 

Eu também cercava-me disso, atendia aos seus telefonemas gentis e desanimados, enquanto ao lado o conhaque e o cigarro aceso que se consumia por si só. Chegava a escrever o seu nome em todo o cigarro para tragá-lo aos poucos e sempre desistia, fazendo guimba na última sílaba. Eu desistia, não procurava por ele durante semanas. Tinha resolvido afastar-me, deixá-lo respirar, afinal, sabíamos viver separados. Ainda que entre tropeços e engasgos. Eu poderia afogar-me nas palavras e ele poderia afogar-se numa boa foda, either way. Tínhamos vivido anos em segundos. Nos amamos entre os goles de champagne no céu, sem beijos ou compreensões dignas. Externamente ordinários numa intensidade lacrada de outros amores. Outras dores. Não éramos puros. Carregávamos as cicatrizes das guerras anteriores. Particularmente, havíamos participado de sangrentas batalhas com gosto de gim pela metade e isso nos dilacerava.

Os boatos das horas contavam silêncios encaixados entre acordes. A melodia seguia e entre aquela tristeza sobrava apenas o nada. Um cheiro de nada, uma cor neutra, um gesto desmantelado pela insignificância. Não conseguíamos desatar os nós, a penúria de desatá-los e o barulho do telefone ecoando nos cômodos natimortos e mudos. Uma surdez de amores cercados pelos cegos martelos do tempo. Monstros inventados por boêmios sábios de um pedaço bonito em Nebraska. Dê-me uma espingarda, rum, dinheiro e um baseado para ver-se livre de mim e do meu amor errado.

Não se arrependa jamais. 

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